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domingo, 31 de maio de 2015

Face do Inverno

Caberá a todos os olhos a procura
A pronúncia dos lábios e a conexão do ouvir
Será a mais pura forma de inconstância
O ar rarefeito e as nuvens esparsas
Distribui-se nas asas novas razões de seguir

Todos os enigmas chegam e pousam no topo
As árvores cantam, mas poucos podem ouvir
Alerta, alerta a espreita, na escuridão está a cadeia
Livra-te da face do inverno impreciso e vai

Grandes são as grades, mas como prendem o vento?
Chegam devagar, dominam e querem afogar
Mas não há água nos céus e o oceano é negro e profundo
As rosas ferem o sangue que gota a gota se vai

Que o nova realidade desnuda e viva nasça
Que a morte abandone as ruas e dê lugar ao pulsante dia
Eu desejo as folhas do outono e um pouco de chuva
Navegar tranquilo entre os continentes ver o novo azul outra vez e ter um arco-íris em cada universo meu...

Ana Maria Vieira

sábado, 2 de maio de 2015

Cárcere

Todo som tem a cor do universo
O ouro mais lapidado quase perfeito
E o silêncio é o meu maior diamante
A dor vem do sangue, clama e como o fogo inflama

Meus olhos partem do sul ao norte
Há uma busca incessantemente forte
Eu desejo a felicidade e ela me escorre morro abaixo
Parece até que secaram-me a vida toda num segundo

Como achar a solução preso nas paredes do cárcere?
Uma perseguição, uma praga maldita e selada
Eu bebo o cálice da morte pouco a pouco
Vejo o sol que só esquenta a carne, o frio algoz congela as ações

O amor é apenas a ideologia de um sonho bom
Um anjo amigo que me ocupa o coração e faz dormir
O medo ronda o cárcere, me espalma o rosto e arranha as costas
Viver é um espetáculo, mas na prisão é um inferno controlado, uma ideia, uma dádiva

A vida desnuda me crava os dentes, mas eu ainda posso sonhar
Passarei nas sombras e verei a luz do dia
Pago, penso e minhas feridas profundas não me levarão ainda
Não nesta vida, sangrarei e me curarei e antes que me tomes vida, brilharei na terra

Ana Maria Vieira



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Insano






Olhos límpidos, pés firmes, andar atrevido
Uma gata com lábios cor de tentação
Um pouco mais perto e o paraíso fez-se aqui
Ela me vê,  logo serei feliz,  eu penso

Não há nada mais triste que amar um pensamento
Acordar às 3 da manhã com um relógio maldito
Ser devorado pela morte, cair no precipício

As línguas se confundem, num diálogo que não compreendo
A dor rapidamente me envolve, falta de ar
Ela vem, sapatos vermelhos e vestido azul
Toca meu corpo e me faz sonhar

Não há nada mais triste que calar um pensamento
Sair de casa, tomar um banho e viver
Cair em si, desmanchar o alívio

Eu a vejo e sei que existe
As minhas preocupações falecem
Eu vivo, há um motivo para não ir tão longe
Eu sei, ela existe...


domingo, 19 de abril de 2015

Saudade e Pedras

Teu corpo, tua existência meu inferno transformado 
A vida deveria ser um sol 
Hoje, eu saio de você pensando
Quando tudo era nada, eu não via

Eu não vivia você
E as luzes da cidade eram maiores
Havia um brilho, um lugar
Eu tinha você

Teus beijos são estórias
Teu olhar me persegue
A casa, o sonho, as cicatrizes
Dores antigas, hoje saudade e pedras

Eu não esquecia você
E as cores da cidade eram maiores
Havia uma paz, um abraço
Eu tinha você

Ao contrário de tudo, eu via o amor florescer
Hoje, nada mais injusto se faz do que nunca te ter


domingo, 16 de novembro de 2014

Domínio



Falo do amor como se balbuciasse algo mais
Nada mais que o nome teu é o que me vem
Alegria e contos de fadas amuados no livro
O despertar de outro dia nos meus sapatos

Corre a lida vida a fora e a paz é o silêncio
Um instante, um risco caio na porta de outro dia
Começou o fim de nada do que nunca será
As perguntas circundam a minha mente a noite toda

Sim, a noite é um inferno às vezes, melhor que fosse inverno
Eu teria nuvens brancas pra me inspirar e muita chuva pra levar a sede
A saudade, a tornei tão indolor que transpassa meu corpo
Torno-me insensível, mas não insensato, jamais!

Ana Maria Vieira


Discurso da ternura

Eu sonhei com pétalas reveladas em puro sangue vivo
Eu vi o desespero das asas sem o vento
As cores mórbidas da saudade dolorida
A face inversa da colônia de disfarces
Folhas sinuosas, paralisadas e retrógradas
Sonhei com a vida desprezada pelo vão
A corrente do mal lavar o contínuo
Eu vi a cálida alternativa bradar no escuro
O gosto do segredo morto e da infelicidade do jato-eminente-cortante
A perseguição do caro possível de eliminar
A via esquecida e enferrujada esperança
O bom estopim controlado da garganta intumescida
A queda do oposto ser mais um descontrolado da questão
A porta aberta do farto nada ter a ver
Sonhei com o lacrimejamento de outubro e o março despedaçado pelo fim da misericórdia
As luvas sairão da opção de desnudar-se das feridas
Tenha-me por fraco ou desnaturalizado, mas eu sonhei e eu vi a sua vida despertar
Dê-me os meus concertos que eu vou me acabar

Ana Maria Vieira


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Na onda e na veia




















Saio por aí sempre carregando as bagagens do meu destino
Dentro da bolsa um pouco de água e um foco de luz
O caminho é longo, as pedras são muitas a falta e o respiro
Sem perceber você vai junto das minhas coisas...

Na tinta da caneta, na borracha e no meu livro preferido
No perfume, na casa e na minha dieta louca( por que não?)
No lugar ao meu lado, na paz e ainda mais no tormento
No fogo e na fumaça, no meu desejo mais intenso

No carro ao meu lado, na dor e na escuridão
No olhar desconhecido, nas folhas e no portão(por que não?)
Nas minhas unhas vermelhas, nos raios do sol e na solidão
Na curva, na sala, e no inverno infernal do exterior

Nos meus olhos, na canção esquecida e na paz burlada
No dia febril, nas horas vagas e na lentidão das horas(por que não?)
No meu cansaço, na música e na propagação dos ventos
Na eletricidade, na química e nas retas que se cruzam

No indolor começar, no término e no reinício
Na línguas, no silêncio e fora de mim(por que não?)
No coração, na mente e nas ações perdidas
No lugar mais propício, na onda e na veia 
Lá, onde você está é bem mais perto do que possa imaginar

Ana Maria Vieira